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O sacrifício dos animais - Nico Fagundes
(sábado, 12 de março de 2005 - Zero Hora)

in memoriam de Carlos Galvão Krebs

Desde o começo do mundo, a religião esteve associada ao sacrifício de animais. Dos dois primeiros filhos de Adão e Eva Caim era agricultor e Abel era pastor. Abel ofereceu as primícias do seu rebanho ao Senhor e isso foi tão agradável ao seus olhos que o ciúme tomou conta do coração de Caim e fez com que ele se levantasse contra seu irmão e o matasse. (Gênese, capítulo 4, versículos 4 e 5). Mais tarde, Abraão se dispôs a imolar seu primogênito Isaac e só não consumou o delito porque foi detido na última hora, mas a imolação prosseguiu com um cordeiro colocado providencialmente pelo Senhor. Quer dizer, era Deus Quem exigia um sacrifício de sangue. Já no Novo Testamento, Cristo expulsa a relhaço os vendilhões do templo, que ofereciam no recinto sagrado animais para o sacrifício. Faltasse mais, o próprio Cristo se colocou como o Cordeiro de Deus para ser imolado para remir os nossos pecados e na última ceia deu a sua carne e o seu sangue aos discípulos, ordenando-os que comessem e bebessem em sua memória. Não é outro o sentido da Eucaristia na missa, momento em que a hóstia e o vinho se transformam no corpo e no sangue do Agnus Dei. Gregos e romanos também sempre imolaram animais para agradar a divindade. Na hora da morte, o próprio Sócrates recomendava a um discípulo que sacrificasse um galo que devia a Asclépio.

Tudo isso é profundamente psicanalítico: pela religião o homem precisa ingerir a divindade transformada em alimento para alcançar a glória eterna.

Ora, o batuque, religião de origem africana que aqui no RS também é chamada nação, pratica o sacrifício de animais, faz o que o homem sempre fez, imolando animais para o agrado dos deuses. Uma festa de batuque tem três fases, como ensinava Carlos Galvão Krebs, de quem fui discípulo e ainda sou e quem me levou, como a dezenas de alunos, à intimidade dos terreiros. A primeira fase é justamente a matança, feita no recesso dos "pejis", altamente secreta, em que os profanos como Krebs e eu só tinham acesso por "agô" (licença especial). A segunda fase, dois ou três dias depois, é a festa pública, em que visitantes e convidados têm livre acesso. A terceira e última fase é a "levantação", também secreta, vedada aos profanos, em que só se sacrificam peixes de pele e quando os "okutá", pequenas vasilhas onde estão ritualmente assentados os Orixás donos da cabeça dos crentes, voltam para as prateleiras do "peji".

Um terreiro é um templo religioso, respeitável, protegido inclusive pelo artigo 5º da Constituição Federal em vigor. Carlos Galvão Krebs era agnóstico, e eu sou metodista desde que nasci. E sempre fomos tratados com o máximo respeito e em troca sempre devotamos, como antropólogos, a mais profunda consideração pelo batuque e seus devotos, aí naturalmente incluídos os seus sacerdotes, dos quais muitos deles se transformaram em nossos amigos além de informantes preciosos da pesquisa. Confundir essa complexa ritualística, essa elevada teogonia, com mera prática de bárbaros primitivos e qualificá-la como crueldade com os animais, isso sim é coisa de bárbaro e ignorantes, fazendo tábula rasa do trabalho de cientistas sociais como Roger Bastide, Melville J. Herszcovits e Carlos Galvão Krebs e, claro, chamar de bárbaros também os personagens da Bíblia e o próprio Sócrates, além de desrespeitar uma religião organizada que tem mais de 500 templos em Porto Alegre.

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